Saúde Mental e Ecoansiedade: da preocupação ambiental à construção da esperança ativa
- anaritanegri
- 5 de jun.
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Nos últimos anos, os impactos das mudanças climáticas deixaram de ser uma realidade distante para se tornarem parte do cotidiano de muitas comunidades brasileiras. Em nossa região, vivenciamos recentemente um período de chuvas intensas que provocou deslizamentos, perdas materiais, famílias desalojadas e situações que ainda hoje demandam atenção e cuidado.
Um dos acontecimentos mais marcantes foi o surgimento de uma grande fenda na área do Morro do Cristo, que atingiu residências, edifícios e instituições de ensino, gerando preocupação, insegurança e mudanças significativas na vida de muitas pessoas. Mais do que os danos físicos, eventos como esse deixam marcas emocionais que frequentemente permanecem por muito tempo após o encerramento da emergência.
Situações dessa natureza aproximam a população dos debates sobre mudanças climáticas e seus efeitos. Mesmo quando não é possível atribuir um evento específico exclusivamente às alterações climáticas, a maior frequência e intensidade de fenômenos extremos têm despertado preocupações legítimas sobre o futuro das cidades, dos territórios e das condições de vida das próximas gerações.
Nesse contexto, muitas pessoas relatam sentimentos de medo, incerteza, tristeza, impotência e preocupação diante das transformações ambientais em curso. Essas experiências emocionais têm sido objeto de estudo da Psicologia e das Ciências Ambientais, especialmente por meio do conceito de ecoansiedade, que busca compreender as respostas humanas aos desafios ecológicos contemporâneos.
"Quando um território sofre, não são apenas as estruturas físicas que são afetadas; também são impactados os vínculos, as memórias, o sentimento de pertencimento e a percepção de segurança das pessoas que nele vivem."
O que é ecoansiedade?
A ecoansiedade pode ser entendida como um conjunto de emoções relacionadas à preocupação com o estado atual e futuro do meio ambiente. Ela pode manifestar-se por meio de inquietação, preocupação persistente, tristeza, culpa, sensação de perda, insegurança ou temor diante das consequências das mudanças climáticas.
Atualmente, pesquisadores da área destacam que a ecoansiedade não deve ser vista necessariamente como uma doença ou transtorno mental. Em muitos casos, trata-se de uma resposta emocional legítima e compreensível diante de ameaças reais que afetam a vida humana e não humana no planeta.
Sentir-se impactado pela crise ecológica demonstra sensibilidade, consciência e capacidade de reconhecer a interdependência entre os seres humanos e os ecossistemas dos quais fazemos parte.
Da redução da ansiedade ao fortalecimento da resiliência
Durante muito tempo, a preocupação principal foi compreender como reduzir os sintomas associados à ecoansiedade. Entretanto, os estudos mais recentes propõem uma mudança de perspectiva.
O foco tem migrado do tratamento da ansiedade para o fortalecimento da resiliência, do senso de agência e da capacidade de ação individual e coletiva.
Nessa perspectiva, o objetivo não é eliminar emoções difíceis, mas aprender a reconhecê-las, compreendê-las e integrá-las de forma saudável à experiência humana. A tristeza, o medo, a preocupação e até mesmo o luto ecológico podem desempenhar um papel importante na mobilização para o cuidado ambiental quando encontram espaços adequados de acolhimento e elaboração.
Um dos principais pesquisadores contemporâneos sobre ecoansiedade é Panu Pihkala, da Finlândia. Seus estudos têm contribuído para ampliar a compreensão das relações entre emoções, mudanças climáticas e saúde mental.
Segundo Pihkala, o desafio não consiste em eliminar a ansiedade ecológica, mas em desenvolver formas construtivas de lidar com ela. Isso envolve reconhecer a legitimidade das emoções despertadas pela crise ambiental e transformá-las em fontes de aprendizado, reflexão, engajamento e ação.
O autor destaca que o excesso de informações sobre os problemas ambientais nem sempre produz mudanças efetivas de comportamento. Em alguns casos, pode até aumentar sentimentos de impotência, negação ou paralisia.
Por essa razão, a transformação não ocorre apenas por meio do discurso ou da transmissão de conhecimento. Ela depende da elaboração emocional das experiências vividas e da construção de vínculos significativos com a natureza e com a comunidade.
O papel das vivências emocionais e das comunidades
As pesquisas atuais indicam que a conexão afetiva com a natureza desempenha um papel fundamental no desenvolvimento de atitudes pró-ambientais.
Quando as pessoas vivenciam experiências significativas em ambientes naturais, desenvolvem maior senso de pertencimento, cuidado e responsabilidade em relação ao mundo vivo. A natureza deixa de ser percebida apenas como um recurso externo e passa a ser reconhecida como parte constitutiva da própria existência.
Da mesma forma, os processos comunitários são fundamentais para enfrentar os desafios emocionais impostos pela crise ecológica. Rodas de conversa, grupos de reflexão, atividades comunitárias e espaços coletivos de escuta permitem que as pessoas compartilhem preocupações, medos, esperanças e experiências relacionadas às mudanças ambientais.
Esses encontros fortalecem os vínculos sociais, reduzem o isolamento emocional e ampliam a capacidade coletiva de responder aos desafios do presente.
A construção de comunidades que dialogam sobre suas emoções e suas relações com o ambiente pode ser tão importante quanto a disseminação de informações científicas sobre as mudanças climáticas.
Os Caminhos para o cuidado da saúde mental envolvem o enfrentamento saudável da ecoansiedade com diferentes estratégias de cuidado. Entre elas destacam-se:
Manter contato regular com a natureza; Participar de grupos de diálogo e reflexão; Praticar atividades físicas; Desenvolver técnicas de relaxamento e atenção plena; buscar acompanhamento psicológico quando necessário; fortalecer redes de apoio social; participar de iniciativas comunitárias e socioambientais; adotar hábitos de consumo mais conscientes e sustentáveis.
Essas ações contribuem para fortalecer a sensação de pertencimento, propósito e capacidade de atuação diante dos desafios ambientais.
Assim, podemos concluir que a ecoansiedade constitui uma resposta humana compreensível diante da crise ecológica contemporânea. Mais do que um problema a ser eliminado, ela pode representar um convite à reflexão sobre nossa relação com a natureza, com as comunidades e com as futuras gerações.
A experiência clínica, comunitária e os estudos mais recentes indicam que a transformação não acontece apenas pela aquisição de informações, mas sobretudo pela elaboração emocional das experiências e pela construção de vínculos significativos com o mundo vivo.
Cuidar do meio ambiente é também cuidar da saúde mental. Quando transformamos a preocupação em ação consciente, fortalecemos a esperança ativa, a resiliência coletiva e a capacidade de construir futuros mais sustentáveis e humanizados.
"As crises ambientais desafiam não apenas nossa capacidade técnica de adaptação, mas também nossa capacidade humana de construir sentido, fortalecer vínculos e sustentar a esperança. É nas relações entre pessoas, comunidades e natureza que encontramos os recursos necessários para enfrentar os desafios do presente e participar da construção de futuros mais sustentáveis."
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