Quando os olhos brilham: escolher uma profissão ou escolher quem queremos ser?
- anaritanegri
- 12 de jun.
- 5 min de leitura

Dos sonhos de infância à construção do futuro: uma reflexão sobre projeto de vida, Psicologia e a escolha profissional.
Conversar com jovens que estão diante da escolha de uma profissão e com adultos que, em algum momento da vida, se perguntam se fizeram a escolha certa é uma experiência sempre muito rica. Apesar das diferenças de idade e de trajetória, há uma pergunta que atravessa essas histórias e, quase sempre, aparece de formas diferentes:
"O que eu quero fazer da minha vida?"
Curiosamente, essa não é apenas uma pergunta sobre trabalho. É uma pergunta sobre identidade, pertencimento, sonhos e projetos. É uma tentativa de responder, muitas vezes silenciosamente, a outra questão ainda mais profunda:
"Quem eu quero ser?"
Talvez por isso a escolha profissional seja um dos momentos mais marcantes do desenvolvimento humano. Ela nos convida a olhar para a nossa história, para as pessoas que admiramos, para as experiências que nos tocaram e para aquilo que faz sentido em nossa vida. Ao mesmo tempo, coloca diante de nós os desafios do mundo real: as expectativas da família, as oportunidades, as inseguranças, as transformações do mercado de trabalho e as rápidas mudanças da sociedade.
Mas existe uma lembrança que costuma aparecer quando essa conversa acontece de forma mais livre e menos apressada.
Quase todos nós nos recordamos de uma época em que a resposta parecia simples. Quando crianças, dizíamos com convicção que queríamos ser professores, bombeiros, médicos, bailarinas, jogadores de futebol ou veterinários. E havia algo de especial naquele momento: os olhos brilhavam quando falávamos sobre esses sonhos.
Talvez a grande questão não seja descobrir qual profissão escolher. Talvez seja não perder o contato com aquilo que um dia fez nossos olhos brilharem e compreender que, no fundo, escolher uma profissão é também escolher um modo de viver, de estar no mundo e de participar da construção da sociedade que desejamos.
Talvez seja por isso que tantas pessoas, em diferentes momentos da vida, retornem à questão da escolha profissional. Não apenas os jovens que estão diante de uma seleção (SISU, Enem, Pism, PAS, PSE) mas também adultos que, depois de anos de trabalho, se perguntam se ainda estão no lugar onde desejam estar. Afinal, escolher uma profissão não significa apenas definir uma atividade. Significa construir, reconstruir e ressignificar, ao longo do tempo, a relação entre aquilo que somos, aquilo que desejamos e aquilo que o mundo nos convida a realizar.
O mundo em que vivemos hoje é muito diferente daquele em que nossos pais e avós fizeram suas escolhas. As profissões se transformam, novos conhecimentos surgem, a tecnologia modifica as relações de trabalho e a sociedade apresenta desafios inéditos. Falamos cada vez mais sobre saúde mental, mudanças climáticas, inteligência artificial, envelhecimento da população, migrações, diversidade, inclusão e novas formas de convivência.
Ao mesmo tempo, acontecimentos recentes têm mostrado como as comunidades podem ser profundamente afetadas por situações inesperadas. As fortes chuvas que atingiram nossa região deixaram marcas que permanecem presentes na vida de muitas famílias. Em conversas com estudantes, educadores e pessoas da comunidade, não é raro ouvir relatos de quem ainda sente medo quando começa a chover, de quem perdeu a tranquilidade, o sono ou a sensação de segurança.
Essas experiências nos ajudam a compreender que a sociedade não precisa apenas reconstruir ruas, casas e edifícios. Ela também precisa reconstruir vínculos, confiança, projetos de vida e esperança.
Talvez seja exatamente aí que as profissões encontrem seu significado mais profundo.
Muitas pessoas ainda imaginam que o psicólogo trabalha apenas no consultório. Mas a Psicologia, assim como a própria sociedade, também se transforma. Hoje, o psicólogo está presente nas escolas, nos hospitais, nas empresas, nos serviços públicos de saúde, nas organizações sociais, nos projetos comunitários, nos programas de acolhimento a famílias, nas ações voltadas para populações migrantes e em iniciativas de promoção da saúde e da qualidade de vida.
Vivemos um tempo em que cuidar das pessoas também significa compreender os grupos, as comunidades e os contextos sociais em que elas vivem. Significa trabalhar com prevenção, educação, desenvolvimento humano, fortalecimento de vínculos e construção de redes de apoio.
Por isso, talvez seja importante mudar um pouco a forma como pensamos a escolha profissional.
Durante muito tempo, a pergunta foi:
"Que profissão vai garantir o meu futuro?"
Talvez hoje possamos perguntar:
"Que profissão me permitirá participar da construção do futuro que desejo?"
Essa mudança de perspectiva é importante porque as profissões não são algo estático. Elas acompanham a evolução da ciência, as transformações culturais e as necessidades da sociedade. Novos campos de atuação surgem justamente quando novas questões humanas aparecem.
Talvez seja por isso que gosto de pensar que os jovens de hoje não serão apenas os profissionais do amanhã. Eles serão, também, os criadores de futuro.
Criadores de futuro porque participarão da construção de novas formas de cuidar, educar, empreender, pesquisar, inovar e fortalecer comunidades. Criadores de futuro porque as escolhas que fazem hoje ajudarão a definir o tipo de sociedade em que todos nós viveremos amanhã.
E essa é uma responsabilidade tão grande quanto bonita.
Talvez, então, a pergunta mais importante não seja apenas:
"Que profissão você vai escolher?"
Talvez a pergunta seja:
"Que tipo de pessoa você deseja se tornar? E que mundo você gostaria de ajudar a construir?"
A resposta para essas perguntas dificilmente virá pronta. Ela vai sendo construída ao longo da vida, nas experiências, nos encontros, nas dúvidas, nos estudos, nas mudanças de caminho e nas pessoas que encontramos.
Talvez por isso a escolha profissional nunca esteja completamente encerrada. Em muitos momentos, somos convidados a revisitar nossos projetos, ressignificar nossas trajetórias e descobrir novas possibilidades de realização e contribuição social.
Mas acredito que existe um sinal importante para quem está vivendo esse processo.
É quando os olhos brilham.
Porque esse brilho, que um dia acompanhou os sonhos da infância, talvez ainda esteja nos indicando o caminho. Não um caminho perfeito ou livre de dificuldades, mas um caminho que faz sentido, que conecta nossa história aos nossos valores e nos convida a colocar nossos talentos a serviço da vida.
Em um tempo de tantas mudanças e incertezas, talvez a educação tenha justamente essa missão: não apenas formar profissionais competentes, mas formar pessoas capazes de cuidar, criar, transformar e construir futuros mais humanos.
E, quem sabe, a escolha profissional seja menos uma resposta definitiva e mais o início de uma bonita conversa consigo mesmo.
Afinal, quando pensamos sobre o futuro, talvez a pergunta mais importante não seja:
"O que você vai fazer quando crescer?"
Talvez a pergunta mais importante seja:



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